Flávia Iriarte: Da Mentoria Literária à Ficção—Romancista Explora Temas de Privilégio e Medo em Seu Debut “Instruções para Desaparecer Devagar”

Flávia Iriarte, uma figura proeminente no mundo editorial brasileiro por mais de 15 anos, agora se lanza como romancista. Aos 40 anos, ela estreia no gênero com “Instruções para desaparecer devagar”, publicado pela Faria e Silva. Conhecida por orientar mais de 8 mil escritores e pela criação da editora Oito e Meio, Flávia deixou para trás a posição de mentora para assumir um novo papel: o de contar sua própria história.

Neste romance, ela aborda uma questão provocativa que a assola: é realmente possível que a consciência sobre privilégio gere mudanças significativas, ou isso resulta apenas em um sentimento de culpa ineficaz? A autora, carioca e radicada em Brasília, trilhou um caminho acadêmico que inclui uma formação em Cinema pela UFF e um mestrado em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. Sua narrativa se origina de uma experiência pessoal: em 2016, Flávia se viu em uma pousada em ruínas no Camboja, uma situação que despertou reflexões profundas sobre segurança e os perigos enfrentados pelas mulheres.

O romance examina essa temática ao acompanhar a vida de Alice, uma jovem branca e rica, e de Bárbara, sua colega de classe, vinda da periferia. O que inicia como um ato simbólico de reparação logo se transforma em um embate silencioso entre as duas, culminando em um episódio violento que força a força da culpa e dos privilégios sociais à superfície. Flávia descreve sua obra não apenas como um thriller psicológico, mas como uma “tragédia contemporânea”, alinhando-a com as estruturas trágicas clássicas de Aristóteles, mas adaptadas ao contexto social moderno, onde os deuses são substituídos por forças sociais de classe, raça e gênero.

Nesse panorama, as complexidades das relações entre mulheres são exploradas de forma realista, desmistificando o ideal da sororidade. Flávia destaca que, embora todas as mulheres enfrentem desafios similares, as desigualdades de classe e raça estabelecem uma hierarquia que merece destaque. Para expressar essas nuances, a autora opta por uma linguagem direta e deliberadamente contida, evitando embelezamentos desnecessários na prosa.

Além de sua carreira literária, Flávia mantêm uma perspectiva crítica do mercado editorial no Brasil, evidenciando que a maioria dos grupos editoriais é controlada por famílias ricas das regiões Sudeste. Contudo, reconhece que o cenário está mudando com a ascensão de novas editoras independentes e iniciativas formativas que democratizam o acesso à literatura.

A transição de Flávia de editora para romancista não representa um rompimento, mas sim a continuidade de sua trajetória como uma profissional dedicando-se à literatura. Com “Instruções para desaparecer devagar”, Flávia não apenas incorpora uma nova dimensão à sua carreira, mas também propõe uma nova reflexão sobre sociedade e desigualdade, enquanto já se dedica a um novo projeto literário, evidenciando sua constante busca por novos desafios e histórias.

Jornal Rede Repórter - Click e confira!


Botão Voltar ao topo