Com a popularização dos celulares, o uso dos orelhões despencou nas últimas décadas. Nos anos áureos da telefonia brasileira, o país contava com impressionantes 1,5 milhão de orelhões. Atualmente, esse número caiu drasticamente, com cerca de 30 mil aparelhos restantes, sendo quase 5 mil localizados na capital paulista. A necessidade de eliminação desses equipamentos se tornou mais evidente após a extinção da concessão de suas operações, que ocorrerá oficialmente em janeiro de 2026.
Entrevistado sobre o tema, Eronildo Almeida, um motorista de aplicativo de 46 anos, relembra como o orelhão era essencial para ele e seus amigos em Guarulhos, na Grande São Paulo. “O orelhão era a única forma de nos comunicarmos com os parentes”, mencionou. Ele contou que, ao se mudar da Bahia, o telefone público era seu único acesso à família, e as filas para utilizá-lo eram comuns. “Ficar na fila para ligar por alguns minutos era algo cotidiano”, disse, nostálgico.
Por outro lado, a nova geração ainda tem algumas lembranças, embora mais vagas. Lucas, também motorista de aplicativo, admitiu que usou o orelhão durante a infância, mas não recorda muitos detalhes. “Tinha um na minha rua até pouco tempo, mas já foi retirado”, revelou.
Enquanto a desativação avança, alguns orelhões ainda resistem, como os que estão na praça Benedito Calixto, em Pinheiros. Uma pasteleria próxima destacou que apenas moradores de rua ainda interagem com esses aparelhos. “Ninguém mais usa, está tudo abandonado”, comentou Shirley, proprietária da pastelaria.
É interessante notar que o design dos orelhões, criado pela arquiteta Chu Ming Silveira em 1972, é uma exclusividade brasileira. A história desses telefones também gerou várias expressões populares, como “caiu a ficha”, originada pela queda das fichas após as ligações.
Com essa remoção, os orelhões deixaram de ser apenas uma peça de comunicação e se tornaram memórias de um tempo em que o acesso à comunicação era bem diferente do que temos hoje. A nostalgia em torno desses aparelhos é um reflexo de como a tecnologia pode nos conectar e, ao mesmo tempo, nos desapegar de entidades que marcaram épocas.
