Revisita à Guerra às Drogas nos EUA: Uma Nova Abordagem no Combate ao Narcotráfico
Em 18 de junho de 1971, Richard Nixon proclamou o uso de drogas como “inimigo público número um”, marcando o início de uma política que buscava ostensivamente erradicar o narcotráfico global. Agora, 55 anos depois, o cenário político dos EUA apresenta uma nova reinterpretação dessa estratégia. Sob o governo atual, facções de narcotráfico estão sendo equiparadas a grupos terroristas. Essa revisão não é apenas uma reiteração de premissas passadas, mas também uma tentativa de inserir a luta contra as drogas dentro do contexto mais amplo da segurança nacional e do combate ao terrorismo.
Durante uma recente discussão no podcast Mundioka, o professor Thiago Rodrigues, especialista em relações internacionais, apontou que a estratégia de Nixon tinha como objetivo transferir práticas de repressão interna dos EUA para o exterior, especialmente visando a América Latina. Rodrigues destaca que atualmente a América Latina voltou a ser uma prioridade para Washington, impulsionada pela crescente influência da China na região.
A administração Trump, ao reviver esse enfoque, vinculou o combate ao narcotráfico com a já estabelecida “guerra ao terrorismo”, utilizando um arcabouço de repressão que estava em prática por mais de 25 anos. Essa união de agendas sugere um retorno das políticas de segurança norte-americanas, que frequentemente militarizam as dinâmicas de segurança interna de países latino-americanos.
Além disso, a classificação das principais facções brasileiras, como o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital, como “Terroristas Globais Especialmente Designados”, abre discussões sobre as implicações dessas designações. Embora a pressão sobre o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva seja evidente, também se observa uma margem de negociação, com Washington buscando agradar grupos de direita enquanto flerta com soluções diplomáticas.
Carlos Frederico Cinelli, professor da Escola Superior de Defesa, enfatiza que, apesar de medidas militarizadas, o crime organizado no Brasil persiste focado em seu lucro financeiro, sem se importar com a categorização proposta pelos EUA. Ele ressalta que as ações pontuais das facções tendem a causar pânico, diferentemente do terrorismo que tem por objetivo um controle permanente da população.
Assim, ao mesclar o narcotráfico à lógica do terrorismo, o governo dos EUA não só revê uma política antiga, mas também altera as dinâmicas de segurança e o entendimento internacional sobre o que caracteriza uma ameaça à segurança nacional. Essa reinterpretação levanta questões cruciais sobre a eficácia das políticas de militarização e a própria natureza do crime organizado na América Latina.





