A instalação de mais de 125 canhões de neve em locais estratégicos como Bormio e Livigno demonstra a dependência crescente da tecnologia para criar condições adequadas para as competições, acompanhada do suporte de grandes reservatórios de água em altitudes elevadas. Historicamente, a necessidade de neve artificial tem aumentado gradativamente: em Sochi, cerca de 80% da neve foi produzida por máquinas; em PyeongChang, esse número subiu para 98%; e nas Olimpíadas de Pequim, 100% da neve utilizada foi artificial.
A realidade climática também apresenta desafios preocupantes, com a quantidade de locais confiáveis para sediar os Jogos reportando uma queda drástica. Entre 1981 e 2010, existiam 87 cidades em todo o mundo que eram consideradas adequadas climaticamente. No entanto, projeções apontam que, até 2050, esse número pode cair para apenas 52, e até 2080, para 46, mesmo em cenários otimistas de redução de emissões de gases de efeito estufa.
As consequências dessas mudanças para além do esporte são significativas. A neve não apenas serve como uma camada de competição, mas é um reservatório natural de água que libera recurso hídrico ao longo do ano. A diminuição da neve tem impactos abrangentes, incluindo menor vazão de rios, pressão sobre reservatórios de água, redução no turismo de montanha e perturbações em ecossistemas adaptados ao frio, afetando diretamente a economia local e modos de vida.
Fundados em 1924, os Jogos Olímpicos de Inverno começaram nos Alpes franceses sob a premissa de uma abundância natural de neve. Hoje, refletir sobre a dependência de máquinas e grandes quantidades de água para a realização do evento é um sinal claro de como as mudanças climáticas estão reformulando tradições estabelecidas há um século. Essa nova realidade não representa apenas um desafio para o esporte, mas também uma chamada à ação sobre as consequências das alterações climáticas que se manifestam em diversas esferas da vida.







