A análise se torna ainda mais grave quando se observa o aumento da inadimplência em diversas modalidades de crédito. O cartão de crédito, por exemplo, atingiu 13,2%, embora tenha encerrado junho em 12,7%. O crédito rural marcou 10,3%, veículos atingiram 8,5% e o crédito consignado ficou em 5,0%. No crédito pessoal não consignado, a taxa escalou para 14,9%, a mais elevada entre as modalidades, embora ainda inferior ao máximo de 16,5% de 2016.
Este cenário se agravou devido a mudanças na regulação financeira que permitiram que os bancos decidissem por conta própria o momento em que uma dívida poderia ser considerada como perdida. Desde janeiro de 2025, essas novas diretrizes levaram a um aumento temporário nas operações em atraso, impactando diretamente os índices de inadimplência. O Banco Central estima que, sem essa alteração, a inadimplência estaria cerca de 0,78 ponto percentual abaixo, o que corresponderia a aproximadamente 45% do aumento observado desde dezembro de 2024.
O pano de fundo dessa situação é a pressão financeira que recai sobre as famílias, que, apesar de experimentarem uma queda nas taxas de desemprego e um aumento nos salários, enfrentam o maior comprometimento da renda com dívidas em 21 anos. Isso afeta de forma desproporcional os tomadores de menor renda, especialmente quando se trata de financiamentos com juros elevados, como cartões de crédito e créditos pessoais.
A realidade se torna ainda mais sombria ao se considerar que 20,3 milhões de brasileiros, o que equivale a 17% dos devedores no sistema financeiro, estão classificados como “endividados de risco”, um salto de 75% em relação a junho de 2021. O relatório do Banco Central sinaliza que as probabilidades de inadimplência permanecerão altas ao longo de 2026.
Em resposta a esse cenário crítico, o Banco Central está considerando implementar medidas macroprudenciais para manejar o superendividamento, incluindo requisitos mais rigorosos para certas modalidades de crédito e um acompanhamento mais próximo da capacidade de pagamento dos tomadores. Contudo, embora a situação exija atenção, o Banco Central afirma que não existem riscos relevantes para a estabilidade financeira, uma vez que os bancos estão aumentando suas provisões para perdas e mantendo níveis adequados de capital e liquidez.




