Recentemente, a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional estimou uma probabilidade de 37% de que El Niño atinja uma intensidade “muito forte” entre novembro de 2026 e janeiro de 2027. Este aumento inesperado nas temperaturas do Oceano Pacífico pode gerar uma série de complicações, incluindo a alteração dos padrões de precipitação que, em última análise, impactam a produção agrícola global. No Brasil, por exemplo, essa situação pode ser particularmente crítica, dada a dependência do país em relação a commodities agrícolas.
Em resposta a esse cenário, o governo brasileiro anunciou um ambicioso plano de R$ 9,8 bilhões, destinado a reforçar a capacidade do Sistema Único de Saúde (SUS) e implementar medidas para mitigar os efeitos do El Niño. Isso inclui a criação de oito Centros Integrados de Saúde e Clima (CISCs) espalhados pelo país, que trabalharão para monitorar e prever eventos climáticos extremos, como ondas de calor, permitindo que alertas sejam emitidos com até cinco dias de antecedência.
A meteorologista Cátia Valente, em recente entrevista, ressaltou que a intensidade e a duração do fenômeno determinarão suas consequências. Enquanto alguns países poderão se adaptar melhor, aqueles com menos recursos tecnológicos e infraestrutura enfrentarão desafios imensos. “A quem tem comida, tem poder”, enfatiza Valente, indicando que a escassez de alimentos e água pode acirrar tensões entre as nações e exacerbar crises sociais.
Além disso, a combinação do El Niño com o aquecimento global já está intensificando os eventos climáticos extremos. Valente destaca o aumento das ondas de calor na Europa, que estão causando sérias crises de saúde pública, uma vez que as construções na região não foram projetadas para lidar com essas temperaturas extremas.
À medida que o El Niño ganha força, os impactos começam a ser mais visíveis, especialmente na primavera e no verão do Hemisfério Sul. O desafio, segundo a especialista, é que mesmo com tecnologia e recursos disponíveis, a capacidade de resposta das nações ainda é desigual, perpetuando a vulnerabilidade de países em desenvolvimento.
Diante desse quadro complexo, é evidente que as alterações climáticas que o El Niño pode induzir são capazes de transitar de uma crise ambiental para uma crise geopolítica, forçando os países a reavaliarem suas estratégias de sobrevivência e colaboração. A implementação adequada do Acordo de Paris desde 2015 poderia ter preparado melhor as nações para enfrentar esses desafios, reduzindo a gravidade das consequências que agora se delineiam. O momento é crítico, e a necessidade de ações efetivas e coordenadas se torna cada vez mais urgente.
