EDUCAÇÃO –

Desafios do Ensino da Cultura Afro-Brasileira: Entraves Religiosos e Faltas de Diálogo Nas Escolas Há Mais de 20 Anos

Nos últimos 20 anos, as redes de ensino em todo o Brasil têm se esforçado para adaptar seus currículos e práticas educacionais a uma legislação que estabeleceu a obrigatoriedade do ensino da história e cultura afro-brasileira em todas as instituições, da educação infantil ao ensino médio. No entanto, a resistência cultural e religiosa, somada à falta de diálogo efetivo, ainda é um obstáculo significativo nesse processo.

Recentemente, um episódio emblemático ocorreu em uma escola pública em São Paulo. Durante o mês da Consciência Negra, policiais armados foram acionados após um pai reclamar que sua filha havia feito um desenho de um orixá durante uma atividade escolar. A ação gerou indignação entre pais, alunos e educadores, revelando como questões relacionadas à cultura afro-brasileira ainda encontram resistência em ambientes educacionais.

Para atender às exigências da lei, escolas na capital paulista têm introduzido um volume significativo de materiais didáticos sobre a temática étnico-racial. A Secretaria Municipal de Educação de São Paulo relatou a compra de 700 mil obras em 2022, abrangendo desde literatura infantil até publicações voltadas para adultos. Além disso, as escolas estão implementando processos formativos com documentos de referência para guiar práticas educativas que valorizem as ricas heranças culturais afro-brasileiras, indígenas e migrantes.

Um exemplo notório é o trabalho da professora Núbia Esteves, que leciona geografia em uma escola no Jardim Boa Vista, São Paulo. Com mais de duas décadas de experiência, ela aplica conteúdo sobre cultura afrodescendente em suas aulas de maneira inovadora, evitando o enfoque religioso. Para ela, o ensino dos orixás e suas histórias é uma forma de trabalhar a cultura e a identidade, sem entrar no campo da religião. Ao comparar mitologias de diversas culturas, Núbia inspira seus alunos a perceberem semelhanças e a refletir sobre questões mais amplas, como a preservação ambiental e o respeito à diversidade cultural.

As suas práticas incluem debates, leituras de obras relevantes e até mesmo a criação de quadrinhos, uma forma que os alunos se apropriam do conteúdo. Essa prática pedagógica tem o potencial de desconstruir preconceitos e promover uma educação mais inclusiva, clara e fundamentada, destacando a importância da cultura afro-brasileira na formação da identidade nacional.

A resistência ainda encontrada ao ensino sobre a cultura africana deve ser enfrentada com diálogo e educação antirracista. Segundo a professora, ao desmistificar e apresentar a cultura afro-brasileira ao lado de outras tradições, reduz-se a discriminação e, gradualmente, constrói-se uma sociedade mais justa e igualitária. Essa abordagem não só enriquece o aprendizado dos alunos, mas também contribui para a promoção de valores éticos e de convivência pacífica em nossa sociedade.

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