Karina aponta que essa proposta de enfoque positivo sobre as contribuições dos negros é uma novidade, mas, segundo ela, ainda carece de uma profundidade mais robusta. Essa percepção se alinha a um estudo recente que revela a escassez de discussões sobre temas raciais nas escolas. Aproximadamente 50% dos alunos do 9º ano do ensino fundamental e do 3º ano do ensino médio afirmam não perceber um debate significativo sobre desigualdades raciais em sala de aula, apesar da existência de leis que estabelecem a importância da história e cultura africana, afro-brasileira e indígena em currículos escolares.
A socióloga Flávia Rios, professora da USP e pesquisadora do Cebrap, explica que, embora a legislação antirracista tenha avançado nos últimos 20 anos, sua implementação ainda é inconsistente. Vários projetos foram iniciados para capacitar docentes e gestores educativos, mas a universalização e a aplicação eficaz dessas leis permanecem desafiadoras, principalmente nas escolas privadas, onde a cobrança da legislação é menos rigorosa.
Ainda de acordo com a pesquisa, existe uma desconexão significativa entre as afirmações dos docentes e a percepção dos alunos. Enquanto a maioria dos professores declara abordar o tema racial frequentemente, menos da metade dos alunos reconhece essa prática. Isso indica que, embora a legislação esteja formalmente presente, sua aplicação é desigual e permeada por limitações.
Flávia afirma que há uma necessidade urgente de monitoramento e diálogo entre as escolas e as famílias para enfrentar o racismo, ressaltando que a educação antirracista não deve ser vista apenas como um esforço para educar alunos negros, mas como um movimento que visa todos os grupos sociais. A falta de professores negros nas salas de aula e a ausência de um currículo inclusivo e diversificado ainda são barreiras a serem superadas na construção de uma educação mais justa.
Em casa, a pesquisadora Juliana Couto, que tem duas filhas, observa que seus filhos já enfrentaram preconceito. Ela defende a inclusão de mais professores negros na educação. Juliana vê a luta por reconhecimento e respeito à diversidade racial como um processo de longo prazo, enfatizando que mesmo pequenas iniciativas hoje podem trazer frutos no futuro. Ela reflete sobre sua própria infância, lembrando que havia uma escassez de discussões sobre raça, um contraste marcante com a realidade atual de suas filhas.





