De acordo com as denúncias, um grande número de trabalhadores enfrentava condições deploráveis, incluindo vigilância armada, alojamentos inadequados, alimentação insuficiente e a prática de servidão por dívida, além da falta total de assistência médica. O procurador Rafael Garcia, que liderou o caso, destacou o sofrimento dos trabalhadores, mencionando que muitos deles foram aliciados e transportados para a fazenda sob condições extremamente desumanas.
A multinacional será obrigada a pagar uma indenização de R$ 165 milhões por danos morais coletivos, quantia que será direcionada ao Fundo Estadual de Promoção do Trabalho Digno e de Erradicação do Trabalho em Condições Análogas à de Escravo no Pará (Funtrad/PA). Em sua avaliação, Garcia descreveu a sentença como uma das mais significativas no combate ao trabalho escravo contemporâneo no país, podendo até ser considerada a maior desse tipo.
Além da reparação financeira, a condenação exige um reconhecimento público da responsabilidade da empresa, um pedido formal de desculpas aos trabalhadores prejudicados e à sociedade. O procurador salientou que essa condenação reforça a ideia de que crimes desse tipo são imprescritíveis, ou seja, podem ser processados judicialmente a qualquer momento, independentemente do tempo que tenha se passado.
O contexto histórico é complicado, pois essas práticas aconteceram durante a ditadura militar brasileira (1964-1985), com a conivência do Estado que, à época, financiou a construção da fazenda através da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam). Para Garcia, o impacto da condenação se estende a toda a sociedade, sinalizando que violações graves de direitos humanos não devem ser esquecidas ou ignoradas.
Em resposta ao veredicto, a Volkswagen anunciou que pretende recorrer da decisão, reafirmando seu compromisso com os princípios da dignidade humana e a responsabilidade social. A empresa também reconheceu sua história de colaboração com o regime militar, admitindo ter havido membros que agiram de forma a beneficiar o governo da época, o que expõe um legado problemático que ainda permeia sua imagem.
Assim, a condenação da Volkswagen servirá não apenas como uma advertência para a gigante industrial, mas também como um alerta para toda a sociedade sobre a importância de resgatar e reconhecer os direitos de todas as vítimas de exploração e abusos.