Na petição, o MPF sugere que a disputa entre o Centro Tecnológico do Exército (CTEx) e cerca de 70 famílias caiçaras seja transferida da 3ª Vara Federal do Rio de Janeiro para a Comissão de Soluções Fundiárias do Tribunal Regional Federal da 2ª Região. O órgão acredita que essa Comissão possui a experiência necessária para mediar conflitos desse tipo e facilitar um desfecho que respeite tanto a proteção das propriedades do Exército quanto os direitos dos moradores locais.
A intenção do MPF é evitar uma remoção abreviada da comunidade, criando um espaço para um diálogo que ressoe com a realidade das famílias caiçaras, que ocupam essas terras desde muito antes da construção do CTEx, inaugurado em 1987. A situação se agrava pelo fato de que muitas dessas famílias vivem em condições precárias e enfrentam múltiplos desafios, incluindo a ameaça de despejo. Atualmente, são mais de 26 ações de reintegração de posse e aproximadamente 50 notificações que pedem a remoção de residências.
Além da vulnerabilidade social dos moradores, a região de Guaratiba é marcada por uma rica herança cultural, onde pescadores tradicionais comercializam pescado com restaurantes locais especializados em frutos do mar. O MPF ressalta que a documentação atual das ocupações deve ser vista à luz de uma identidade compartilhada, despontando um litígio de natureza coletiva que exige uma solução estruturada.
A situação das sete comunidades afetadas – Olaria, Poço das Pedras, Pernambuco, Bolsão do Índio, Itapuca, Araçatiba e Varginha – se complica ainda mais, pois os moradores receberam notificações extrajudiciais com prazos curtos para deixarem suas casas, sem que lhes fosse oferecida uma alternativa habitacional. Tal situação contraria a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que reconhece os direitos territoriais desses povos.
A Defensoria Pública da União também se fez parte nesse pedido, articulando a necessidade de uma compreensão intercultural dos direitos fundamentais dos moradores. Em um contexto que envolve luta e resistência, a comunidade caiçara continua a se mobilizar, buscando defender não apenas suas moradias, mas também a preservação de sua cultura e modo de vida. O Exército, por sua vez, ainda não se manifestou sobre esta nova posição do MPF, criando um espaço de incerteza em meio a um panorama já desafiador.
