A presidente da Comissão de Anistia, Ana Maria Lima de Oliveira, expressou, durante o evento, o pesar do Estado pelas violações sofridas, enfatizando a importância da resistência e da luta do povo avá-canoeiro ao longo dos anos. Ela agradeceu pela sobrevivência dessa etnia, que, apesar dos desafios impostos, conseguiu manter sua identidade e suas tradições. Ao referir-se aos representantes presentes, Ana Maria ressaltou que a luta deles não foi em vão e dignificou a trajetória do povo indígena.
A anistia coletiva é um reconhecimento de que o próprio Estado foi responsável pela perseguição e violação dos direitos de comunidades, especialmente em um momento marcado pela repressão política. Com essa decisão, o governo brasileiro busca preservar a memória histórica e reafirmar seu compromisso com a justiça e os direitos humanos.
Desde o início de 2023, a Comissão de Anistia vem avaliando casos semelhantes, abrangendo diversas comunidades que enfrentaram perseguições ao longo da história do Brasil. Entre estas, estão os povos indígenas krenak e guarani-kaiowá, além de grupos como imigrantes japoneses e associações de favelas.
O relator do caso dos avá-canoeiro, conselheiro Manoel Severino Moraes de Almeida, trouxe à tona relatórios da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) que evidenciam as dificuldades enfrentadas pela comunidade, que foi alvo, entre as décadas de 1940 e 1960, de ações violentas por fazendeiros. A situação culminou em massacres que buscaram eliminar a presença indígena em prol da expansão agropecuária. As tentativas da Funai de atrair o povo avá para nova frente de ocupação resultaram em ainda mais vulnerabilidade e tragédias para a etnia, colocando-os em um estado de subordinação.
A presidenta da Associação do Povo Ãwa, Kamutaja Silva Ãwa, classificou a decisão como “histórica”, mas, apesar do reconhecimento, alertou para as barreiras burocráticas enfrentadas pelo seu povo na busca por políticas públicas. Kamutaja relatou o sofrimento de sua infância e o impacto psicológico nos membros mais velhos da etnia, revelando a complexidade da luta por direitos que, ainda hoje, se mostra um desafio.
Em sua fala, Kamutaja sublinhou a necessidade de maiores ações e políticas efetivas para garantir a sobrevivência do povo avá-canoeiro, cuja existência ainda é ameaçada pela precariedade das condições sociais e dos serviços à saúde. O pedido de desculpas pode simbolizar um avanço, mas a jornada pela dignidade e acesso aos direitos fundamentais segue repleta de obstáculos.
