Desconfiança e Divisão Marcam a Implementação da Apac Bossa Nova no Rio: Moradores Questionam Proteção ao Patrimônio Cultural

Na última quinta-feira, a Prefeitura do Rio de Janeiro anunciou, por meio do Diário Oficial, a criação da Área de Proteção do Patrimônio Cultural (Apac) Bossa Nova, gerando reações mistas entre os moradores dos bairros de Ipanema e Leblon, bem como entre especialistas em patrimônio e urbanismo. O decreto, número 58.245, datado de 1º de julho de 2026, estabelece a proteção definitiva de 17 imóveis em destaque, além de regulamentar o icônico calçadão de pedras portuguesas que emoldura a orla. Um dos aspectos mais emblemáticos da medida é a declaração da Garota de Ipanema, o famoso bar Veloso, como Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial, em homenagem à sua história ligada a grandes nomes da música brasileira, como Tom Jobim e Vinicius de Moraes.

Este novo decreto também impõe limites rígidos para construções em áreas designadas, estabelecendo uma altura máxima de 20 metros, o que equivale a edificações de seis a sete andares. O objetivo expressado pela administração municipal é proteger as características arquitetônicas e paisagísticas dessas áreas, evitando construções que possam comprometer a beleza urbana e o acesso às praias, além de prevenir sombras que afetem a qualidade de vida dos moradores.

Entretanto, a recepção do decreto foi morna. Enquanto alguns moradores e líderes comunitários expressam otimismo quanto à nova regulamentação, outros levantam preocupações. Maria Amélia Loureiro, presidente da Associação de Moradores e Amigos de Ipanema, classificou a medida como tardia, citando construção de prédios que já ultrapassam o limite desejado, o que poderia tornar a nova regulamentação ineficaz.

Por outro lado, alguns especialistas, como Carlos Eduardo Nunes Ferreira, vice-diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ, analisam o decreto com ceticismo, apontando que ele é mais liberal do que as regulamentações anteriores, como a da Apac Ipanema, que permitia apenas 12 metros de altura. Ferreira critica a dispensa da criação de áreas de entorno, um aspecto que, segundo ele, facilitaria o licenciamento e comprometeria a preservação cultural.

Enquanto isso, a presidente da Associação de Moradores do Leblon, Evelyn Rosenzweig, vê a nova Apac como uma extensão positiva das regulamentações anteriores, destacando que, embora haja desafios na conservação do calçadão, o tombamento pode gerar uma nova onda de revitalização e cuidado por parte da prefeitura.

O debate sobre a Apac Bossa Nova continua, refletindo as tensões entre progresso urbano e preservação cultural em um dos bairros mais emblemáticos do Rio de Janeiro. As vozes discordantes entre os moradores demonstram que a busca por um equilíbrio entre desenvolvimento e patrimônio ainda é um caminho repleto de desafios a serem superados.

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