Debate sobre Inteligência Artificial e Soberania Brasileira de Destaque no Congresso Latino-Americano de Ciência Política em Buenos Aires

A coletânea intitulada “Estudos Sociopolíticos da Inteligência Artificial”, coordenada pela professora Sylvia Iasulaitis, do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), e pelo pesquisador Sérgio Amadeu da Silveira, associado ao Centro de Engenharia, Modelagem e Ciências Sociais Aplicadas da Universidade Federal do ABC, representa uma significativa contribuição no contexto do XIII Congresso Latino-Americano de Ciência Política (ALACIP). Este evento, que ocorre entre 21 e 24 de julho em Buenos Aires, Argentina, é reconhecido como o principal fórum de ciência política da América Latina, e o livro pode ser acessado gratuitamente na internet.

Com o tema central “Quatro décadas de democracia na América Latina: entre o fortalecimento e a erosão em um mundo incerto”, o congresso busca explorar a interseção entre democracia e tecnologia. Um dos principais questionamentos que permeiam a agenda do evento é a influência dos algoritmos nas esferas eleitorais, de segurança pública, no mercado de trabalho e na produção do conhecimento científico. A escolha dessa coletânea para o congresso destaca a relevância crescente das discussões acerca da inteligência artificial, especialmente em um contexto caracterizado pela busca de soberania e pela luta contra as desigualdades impostas pela economia digital.

Iasulaitis, em sua apresentação, aponta que a inteligência artificial deve ser vista não apenas como uma ferramenta, mas como um “fenômeno social” que altera as relações de poder, redistribuindo recursos e criando uma nova dinâmica entre “vencedores” e “perdedores”. O diálogo gerado neste congresso visa ampliar as reflexões sobre como as tecnologias influenciam a democracia, principalmente em regiões como a América Latina, que enfrentam desafios peculiares devido à sua posição periférica na economia de dados.

Um dos pontos críticos abordados na coletânea refere-se à soberania dos dados. Os pesquisadores alertam para um cenário em que a “dataficação” e o controle por grandes tecnológicas resultam em uma nova divisão internacional do trabalho, relegando países latino-americanos a meros fornecedores de dados, enquanto a infraestrutura e os lucros se concentram em nações com maior capacidade tecnológica. Em números, os investimentos em inteligência artificial nos EUA e na China contrastam acentuadamente com a inexistência de países latino-americanos no topo dessas cifras.

Além disso, a coletânea discute a integridade do processo eleitoral, examinando a evolução das urnas eletrônicas e as controvérsias que se instauram em torno delas. Um estudo particular aborda a parceria entre o Centro de Informática da UFPE e o Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco para desenvolver um kit robótico que contribui para a verificação da integridade das urnas. Nesse contexto, a relação entre ciência e tecnologia também é analisada, evidenciando a dependência crescente dos pesquisadores em relação às plataformas digitais.

A coletânea propõe uma nova área de pesquisa, batizada de Estudos Sociopolíticos da Inteligência Artificial, reconhecendo que, embora a tecnologia provoque mudanças relevantes na sociedade, ela também exige a formulação de novos questionamentos. A obra se apresenta como uma ferramenta fundamental para o aprofundamento das investigações sobre a intersecção entre inteligência artificial e volatilidade democrática, ao mesmo tempo em que está disponível para download gratuito, facilitando o acesso ao conhecimento produzido nesta área emergente.

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