Gê Coelho: A ascensão de um filho da favela ao conhecimento e à literatura
Gê Coelho é um exemplo de perseverança e transformação. Diagnosticado com uma incapacidade cognitiva aos 9 anos, ele teve que retroceder nos estudos para iniciar a alfabetização. Apesar das dificuldades, ele concluiu o ensino médio aos 18 anos, só então percebendo que havia atingido sua capacidade máxima de aprendizagem, acreditando que o tempo de escolarização havia chegado ao fim. Contudo, sua trajetória mudou com a ajuda de uma cunhada, que o inspirou após ser aprovada no vestibular da UFRJ. Isso gerou um efeito dominó que levou Gê, já passado dos 30 anos, a perceber que ele também poderia avançar academicamente.
Desde então, a vida de Gê transformou-se de forma significativa. Ele se formou em História, obteve uma pós-graduação em História do Brasil, e concluiu seu mestrado em Filosofia, que resultou em um livro semifinalista do prestigiado prêmio Jabuti Acadêmico. Atualmente, ele está em fase de doutorado em Bioética, dedicando sua vida ao conhecimento e à defesa das narrativas das pessoas em situação de vulnerabilidade social, especialmente as que vivem em favelas.
Natural de Vigário Geral e criado em Cordovil, Gê lançou seu primeiro livro, “Favelismo — A revolução que vem das favelas”, buscando mostrar a força das comunidades frequentemente associadas a estereótipos negativos. Para ele, as favelas representam espaços de inovação e criação, e não meramente de crime e vulnerabilidade. Neste sentido, Gê está preparando seu segundo livro, “Elaine Cristina”, uma ficção em três volumes que destaca as histórias de mulheres negras.
Entrevistado, Gê reflete sobre os obstáculos enfrentados por quem provém de territórios periféricos e negros. Ele enfatiza a urgência de reverter a visão negativa que permeia a sociedade em relação às favelas, propondo uma nova lente: a valorização do conhecimento e criatividade que emergem desses espaços. Ele argumenta que, caso o Estado reconhecesse as favelas como produtoras de cultura e economia, o Brasil poderia almejar uma posição de destaque no cenário global.
Ao abordar a realidade das favelas, Gê critica a forma como o Estado as vê, comparando essa visão a uma abordagem médica que opta por mutilar em vez de tratar. Para ele, é essencial que o Estado reavalie sua percepção e reconheça as capacidades das comunidades, permitindo que as potências sociais e culturais que ali habitam possam florescer e trazer benefícios tanto para a sociedade quanto para o país.
Com essa visão transformadora, Gê Coelho não apenas traça um novo caminho para sua vida, mas também abre espaço para que outras vozes da favela sejam ouvidas e valorizadas.
