Essas reformas foram vistas como uma forma de suavizar tensões com os Estados Unidos, especialmente em um contexto em que o governo norte-americano reafirmou sanções contra várias instituições cubanas, incluindo empresas ligadas ao setor militar. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, anunciou novas restrições, que incluem a possibilidade de processos por propriedades nacionalizadas após a Revolução.
Especialistas, como o advogado federal e analista de Cuba Guilherme Barbosa Pedreschi, destacam que, embora a abertura econômica tenha potencial para revigorar a atividade econômica, os efeitos práticos dependerão da superação da crise energética, que tem afetado não apenas a população, mas também setores essenciais, como saúde, comércio e turismo. O país enfrenta uma grave dependência de importações de petróleo, fornecendo apenas uma fração de sua necessidade interna.
Enquanto isso, a escassez de energia se traduz em constantes apagões, levando muitos cubanos a viverem com apenas algumas horas de eletricidade por dia. A ajuda internacional de aliados como Brasil e China tem sido importante, mas a maioria da assistência se concentra em alimentos e suprimentos, não resolvendo a falta de energia que é crítica para a recuperação econômica.
A complexidade da situação é exacerbada pelas restrições dos EUA, que desencorajam empresas internacionais de enviar petróleo para Cuba em temor de sanções. Desde 2025, apenas um navio russo conseguiu realizar abastecimento significativo, o que mantém a crise energética em alta. Além disso, o colapso das indústrias de base, como refinarias, tem seu impacto agravado pela falta de peças, com restrições que impedem a entrada de novos equipamentos.
As reformas adotadas pelo governo cubano não devem ser vistas como uma ruptura drástica, mas como um aprofundamento de um processo que começou há décadas. Desde o chamado “processo de retificação” de Fidel Castro nos anos 1980, até os Lineamentos do VI Congresso do Partido Comunista em 2011, a ilha vem gradualmente se abrindo, mesmo que de forma cautelosa, ao investimento privado e ao mercado.
O historiador Luis Eduardo Mergulhão considera que, embora seja um progresso significativo, essa abertura traz desafios, como o aumento das desigualdades sociais, que podem demandar políticas diferenciadas para apoiar grupos mais vulneráveis. A busca por um equilíbrio entre o fortalecimento do mercado e os princípios de igualdade social do modelo cubano será crucial nos próximos anos.
Cuba, que já se destacou por seus avanços em saúde e educação, agora enfrenta o dilema de evoluir economicamente sem comprometer os valores sociais conquistados ao longo da Revolução. O contexto histórico das políticas cubanas deve ser levado em conta ao se avaliar seu futuro, especialmente à luz das pressões externas e das necessidades internas que se intensificam.





