Quando um banco colapsa, as discussões frequentemente se concentram em aspectos como liquidez, governança e riscos sistêmicos, que são, de fato, cruciais. Contudo, raramente se menciona o efeito devastador que esses eventos têm sobre o mercado de trabalho, especialmente entre os profissionais do setor bancário, onde as consequências são quase imediatas. As equipes entram em um estado de alerta, e o que se observa é que muitos executivos passam a carregar um “carimbo invisível” em seus currículos. Esse estigma faz com que recrutadores e empresas adotem uma postura mais cautelosa, não necessariamente analisando a competência, mas fazendo uma associação prejudicial com a falência da instituição.
Experiências similares foram observadas em crises anteriores, como a das Americanas no início de 2023. Embora os setores sejam diferentes, a dinâmica é semelhante: profissionais competentes enfrentam grandes dificuldades de recolocação, simplesmente por serem percebidos como parte dos problemas que geraram o colapso.
A questão central aqui reside na incapacidade de distinguir entre quem realmente agregou valor e aqueles que estavam apenas presentes no sistema. Esse dilema afeta os profissionais, que precisam readaptar-se em um ambiente de desconfiança, e as empresas, que podem estar perdendo a oportunidade de integrar novos talentos que, apesar de sua ligação a instituições não mais operacionais, possuem habilidades válidas e experiência relevante.
Mais alarmante é o fato de que crises desse tipo não expõem apenas deficiências financeiras, mas também falhas culturais e de governança. A transparência e a boa gestão não são encontradas apenas em números em planilhas, mas devem ser observadas nas decisões que moldam uma instituição. A priorização do crescimento a qualquer custo, um ambiente que desencoraja questionamentos e a falta de compreensão do porquê das ações são sintomas de uma gestão problemática.
Assim, a abordagem na área de recrutamento precisa evoluir. O setor financeiro, bem como outros, deve ir além da análise superficial de currículos e das passagens por grandes instituições, buscando entender a capacidade de decisão e a conduta ética sob pressão. Quando ocorrem crises, não apenas os desprovidos de resiliência ficam expostos; também emergem aqueles despreparados para a turbulência.
As crises não são apenas situações desafiadoras; são também momentos de revelação. Elas expõem estruturas frágeis, lideranças inconsistentes e um mercado que continua a contratar mais pela reputação das instituições do que pela qualidade de seus profissionais. Sem uma mudança nessa lógica, o ciclo de falhas se perpetuará, trazendo à tona novos nomes e os mesmos erros, impactando a vida de diferentes profissionais a cada vez.
