As pesquisas de opinião corroboram um momento delicado para o governo Milei. O Índice de Confiança no Governo, medido pela Universidad Torcuato Di Tella, caiu para 1,94 em uma escala de 0 a 5 — o menor registro desde o início de seu mandato. A avaliação positiva do presidente despencou para 36,4%, enquanto a desaprovação atingiu quase 62%, refletindo a crescente insatisfação popular.
Como consequência, as discussões sobre a próxima eleição presidencial de 2027 começaram a ganhar corpo, com empresários e líderes políticos debatendo a necessidade de um candidato que possa equilibrar compromisso fiscal e políticas de um Estado mais ativo em áreas estratégicas. Nesse contexto, Myriam Bregman, uma respeitada advogada de direitos humanos, surgiu como uma potencial candidata da esquerda.
A análise é aprofundada pela especialista em relações internacionais, Beatriz Bandeira de Mello, que destaca a interligação entre a política interna e externa sob o governo de Milei. A utilização de crises diplomáticas por parte do presidente argentino para galvanizar seu apoio político e desviar a atenção dos problemas domésticos é clara. “Hoje, política interna e externa estão intimamente ligadas”, afirma Mello.
Além disso, o comportamento de Milei também está alinhado à sua estratégia de estreitar laços com líderes conservadores da América Latina, destacando-se a aproximação com Flávio Bolsonaro no Brasil e aliados ideológicos na região. A retórica agressiva, no entanto, contrapõe-se ao real estado das relações econômicas entre Argentina e Brasil, que se mostram cada vez mais interdependentes. O comércio bilateral, que alcançou US$ 31,1 bilhões em 2025, evidencia uma conexão que, mesmo em meio às tensões políticas, é difícil de ser rompida.
Flávia Loss, professora de relações internacionais, reafirma que, apesar dos embates verbais, as estruturas comerciais como o Mercosul continuam a funcionar como um fator estabilizador nas relações entre os dois países. As crises anteriores, como as que ocorreram durante o governo de Jair Bolsonaro, também foram superadas por um pragmatismo econômico que prevaleceu.
Contudo, Loss aponta um risco de longo prazo: o gradual desgaste da confiança mútua pode limitar futuras iniciativas de integração regional. “A política externa deve ser uma construção de longo prazo e não uma arma de imediato”, conclui. Portanto, o que se observa é um jogo complexo de estratégias políticas que, em última instância, pode acarretar mais consequências do que soluções para as diversas crises enfrentadas por ambos os países.





