Esse procedimento, conhecido como AlloClae, é desenvolvido a partir de tecido adiposo de doadores falecidos, que passa por um processo rigoroso de esterilização e purificação antes de ser utilizado. Profissionais afirmam que essa abordagem poderia ser vista como uma forma de “reciclagem” de tecidos humanos, uma vez que o material tem uma estrutura mais próxima da gordura natural do corpo. Contudo, essa inovação ainda carece de estudos científicos robustos que garantam sua segurança e eficácia a longo prazo.
O clínico geral Lucas Albanaz, diretor clínico do Hospital Santa Lúcia Gama, alerta que a origem humana do material não elimina os riscos. Mesmo após os processos de esterilização e remoção de DNA, o organismo pode tratar esse tecido como um elemento estranho, podendo causar reações inflamatórias, nódulos e infecções, além de complicações graves, como embolizações. Albanaz enfatiza que, na medicina, é fundamental que produtos novos tenham evidências consistentes de segurança.
Além das dimensões médicas, a prática suscita discussões éticas complexas. A necessidade de consentimento claro e específico dos doadores é uma questão central, já que o uso de gordura de cadáveres para fins estéticos pode ser visto como uma mercantilização do corpo humano. A linha entre inovação médica e exploração de vulnerabilidades emocionais dos pacientes é sutil, e especialistas pedem que haja transparência sobre a origem do material e seus potenciais riscos.
No Brasil, o uso de gordura de doadores falecidos para procedimentos estéticos é proibido. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o Conselho Federal de Medicina (CFM) estabelecem regras rígidas para garantir a segurança e a rastreabilidade de qualquer material biológico em uso clínico, ressaltando que qualquer prática fora dessas normas pode ser considerada ilegal e potencialmente perigosa.
À medida que a técnica ganha popularidade nas redes sociais e em clínicas internacionais, profissionais de saúde reiteram a importância da precaução. A busca por resultados estéticos rápidos não deve comprometer a segurança do paciente, e inovações que provocam estranhamento devem acender luzes de alerta, lembrando que nem tudo que é novo é necessariamente seguro.






