Cidade mais violenta do Brasil, Queimados não tem hospital e emprego

Quem chega ao município de Queimados, na Baixada Fluminense, tem a impressão de uma calma aparente, típica das pequenas cidades do interior. Ao lado da estação de trem, aposentados jogam damas na pracinha e pessoas perambulam pelo comércio. Nada que faça suspeitar que o local é classificado como o mais violento do Brasil, segundo a última edição do Atlas da Violência, publicação do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). O combate à violência será um dos desafios dos governantes que serão eleitos em outubro e a segurança pública é um temas das reportagens especiais da Agência Brasil sobre as eleições 2018.

O relatório, lançado em junho passado, referente a 2016, apontou o recorde de 134,9 homicídios e mortes violentas por 100 mil habitantes em Queimados, que fica a 50 quilômetros da capital. A média nacional, nesse mesmo ano, para municípios com mais de 100 mil habitantes, foi de 38 homicídios, quase quatro vezes menos. Queimados tem 145 mil habitantes.

Esse título de campeã não orgulha, é claro, nenhum de seus habitantes. Pelo contrário. Alguns acham exagerado o número e se dizem tranquilos ao andar pelas ruas. Outros, reconhecem que há violência na cidade, mas creditam a locais específicos, como as três comunidades existentes. “Acho absurda essa fama. Insegurança tem em todas as cidades do país. Aqui tem bairros perigosos, mas eu nunca fui assaltado. À noite é que as pessoas preferem ficar em casa e eu mesmo não trabalho depois das 20h”, disse o taxista Hélio Júnior da Silva Melo, cujo ponto é próximo à estação de trem e à pracinha, onde grupos se reúnem em torno de mesas de concreto com tabuleiros de dama pintadas, atesta o Terra.

A praça fica quase em frente ao Morro da Caixa D´Água, considerado um dos mais violentos da cidade, do outro lado da linha do trem. “Lá no Rio é mil vezes pior. Eu não tenho medo de andar na rua. A qualquer hora, eu saio”, garantiu o ambulante Ailton de Paula, sendo rebatido pelo aposentado João Martins. “Aqui em Queimados é perigoso sim. No Morro São Simão, toda noite matam gente. Ali na Pedreira, expulsaram morador. É muito violento. É milícia com bandido, é bandido com polícia. É geral”, disse João. Segundo o aposentado, no asfalto não há ocorrência de tiros ou mortes. O problema, segundo ele, são os furtos de celular, praticados por ladrões que vêm de bicicleta e arrancam o aparelho da mão das vítimas. Assaltos a lojas acontecem, mas são raros.

O secretário de Segurança de Queimados, Alan Tavares Perfeito, considerou que os números do Ipea retrataram um suposto ponto fora da curva, um pico de violência que aconteceu em 2016, quando houve o recrudescimento da disputa pelos morros, entre traficantes e milicianos.

Ele argumenta ainda que, nos últimos dois anos, 11 indicadores do Instituto de Segurança Pública foram reduzidos. Entre eles, homicídio doloso, homicídio culposo, roubo de veículos, roubo a transeunte e furtos.

Entre as principais medidas anunciadas pelo secretário está a criação da Guarda Municipal, que deverá começar a operar até dezembro, com 14 integrantes e quatro veículos próprios. Além da função prioritária de dar segurança ao patrimônio público, os guardas também vão atuar ostensivamente nas ruas, com objetivo de prevenir pequenos crimes e delitos. A Guarda Municipal atuará em conjunto com 20 policiais militares voluntários que trabalham para o município durante os dias de folga, através do Proeis (Programa Estadual de Integração na Segurança).

21/07/2018

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