CAMARA DOS DEPUTADOS – Amazônia em Alerta: Mercúrio Atinge Níveis Críticos e Ameaça Saúde de Populações e Ecossistemas, Dizem Especialistas em Audiência Pública.

Amazônia Sob Ameaça: O Impacto do Mercúrio e a Urgência por Ações Eficazes

Em uma audiência pública convocada pela Comissão da Amazônia e dos Povos Originários e Tradicionais da Câmara dos Deputados, especialistas e representantes da sociedade civil apresentaram um quadro alarmante sobre a contaminação por mercúrio na Amazônia. Durante o encontro, evidenciou-se que a proibição do uso desse metal na mineração é a única solução viável para cessar a contaminação crônica que afeta a saúde das comunidades e o meio ambiente na região.

Estudos conduzidos por cientistas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) revelam um estado de alerta no território do povo Mundurucu, no Pará. Os pesquisadores monitoram dez aldeias nas bacias dos rios Tapajós, analisando os efeitos do mercúrio na saúde de gestantes e crianças nos primeiros mil dias de vida. O médico Paulo César Basta destacou o perigo do consumo de peixes contaminados, que permite ao mercúrio atravessar a barreira placentária e prejudicar o desenvolvimento do feto, resultando em sérios danos neurológicos.

Os dados são igualmente preocupantes: as mulheres da região apresentam, em média, níveis de mercúrio oito vezes superiores aos limites seguros, com algumas chegando a impressionantes 40 microgramas por grama de cabelo. Entre as crianças, a concentração encontrada é de 4,35 microgramas, mais de duas vezes o limite tolerável. Esses índices revelam um teto crítico de saúde pública, já que muitos recém-nascidos apresentam síndromes neurológicas severas, evocando reminiscências da tragédia de Minamata, no Japão.

A questão, no entanto, não se limita às comunidades indígenas. A contaminação por mercúrio já se espalhou para centros urbanos da região norte do Brasil. O Instituto de Pesquisa e Formação Indígena coletou amostras de peixes em feiras locais e constatou que o consumo de espécies contaminadas, especialmente as carnívoras, é uma realidade preocupante para toda a população amazônica.

Ainda mais alarmantes são as comparações internacionais. Pesquisas indicam que a concentração de mercúrio no sangue das populações amazônicas é 80 vezes maior do que a verificada nos Estados Unidos. As consequências dessa realidade são multiplicadas por outros fatores, como grandes projetos de infraestrutura, que também contribuem para a remobilização do mercúrio presente no solo.

A audiências públicas ressaltaram as críticas em torno dos compromissos internacionais do Brasil na Convenção de Minamata. O país recebeu funding para desenvolver um plano de ação destinado a combater a contaminação por mercúrio, mas a falta de transparência e a exclusão de organizações civis do diálogo foram amplamente questionadas. Os críticos afirmam que as iniciativas governamentais falham ao focar apenas no garimpo legal, ignorando a verdadeira fonte do problema: a mineração ilegal.

As agências reguladoras também enfrentam questionamentos sobre a concessão de licenças para mineradoras sem rastreamento do mercúrio — um insumo impossível de obter legalmente no Brasil. Diante desse cenário, o Ministério Público Federal destacou a necessidade urgente de ações mais robustas e integradas, incluindo incentivos à saúde, educação e recuperação de áreas degradadas.

Por fim, a comissão anunciou que apoiará a tramitação de projetos de lei fundamentais, como a criação de uma Política Nacional de Prevenção da Exposição ao Mercúrio e a proibição definitiva do seu uso na mineração. Esses esforços refletem a necessidade urgente de um movimento coletivo em prol da saúde e da preservação ambiental na Amazônia, antes que a situação se torne irreversível.

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