Cade Aprova Aquisição da Kovr Pelo PicPay, Mas Levanta Suspeitas de Irregularidades
O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) deu luz verde, sem restrições, à compra da seguradora Kovr pelo PicPay, banco digital sob o controle da J&F, pertencente à influente família Batista. A decisão, divulgada na última quinta-feira, chama a atenção não apenas pela aprovação, mas também pelos indícios de irregularidades que cercam o processo. O despacho oficial foi publicado no Diário Oficial da União na segunda-feira.
Embora o negócio tenha sido liberado, a autarquia expressou preocupação ao identificar potenciais práticas de “gun jumping”, um termo que descreve tentativas de realizar ações de mercado antes da devida autorização regulatória. Segundo informações levantadas pela superintendência do Cade, há sinais de que o dinheiro da transação pode ter circulado de forma artificial entre os envolvidos, revelando uma possível triangulação financeira. Essas manobras financeiras levantam dúvidas sobre a transparência da operação e o verdadeiro controle da seguradora.
A Kovr, anteriormente parte do conglomerado do Banco Master, atuava em setores como seguradora e resseguradora. A empresa havia sido vendida em julho de 2025 a um grupo de executivos minoritários e, apenas dois meses depois, foi revendida ao PicPay. O que chamou a atenção do Cade foi o fato de que, na mesma data da venda ao PicPay, o banco digital teria concedido créditos aos vendedores, somando exatamente ao preço de aquisição, um movimento que sugere a criação de uma etapa intermediária para disfarçar a verdadeira transação.
Essas suspeitas não são triviais. A prática de gun jumping pode resultar em multas que chegam a R$ 60 milhões, além de sanções severas como a nulidade do negócio. A gravidade das ações é avaliada em consideração à intenção e à má-fé de todos os envolvidos.
Apesar das controvérsias, a aprovação do Cade tem fundamentos baseados em análises de mercado. A sobreposição entre as empresas é considerada baixa, com as partes envolvidas ocupando menos de 20% de participação em mercados sobrepostos. No entanto, o histórico conturbado do Banco Master, incluindo sua recente liquidação, torna o cenário mais complexo.
O PicPay formalizou seu interesse na Kovr em fevereiro, enxergando a aquisição como uma oportunidade de diversificar suas operações em seguros e previdência, segmentos que complementam suas atividades bancárias existentes. Além disso, a compra da Estrutural Corretora, parte do mesmo negócio, poderia solidificar sua presença no setor de corretagem.
Em resposta à aprovação, o PicPay informou que aguarda um período de 15 dias para que a decisão do Cade se torne definitiva. O fechamento da transação, no entanto, ainda depende da análise de órgãos como a Superintendência de Seguros Privados (Susep) e o Banco Central. Em sua declaração, o PicPay enfatizou que a transação foi conduzida de acordo com todas as exigências legais e regulatórias, ressaltando seu compromisso com a conformidade.
