Enquanto a Europa avança rapidamente em investimentos e regulamentações para desenvolver uma indústria de baixo carbono, o Brasil se estabelece como um país com potencial competitivo extraordinário. A matriz energética limpa do Brasil, sua abundância hídrica e as reservas de minério de ferro de qualidade superior tornam o país um eleito natural nesse contexto.
Dados recentes mostram que a União Europeia gerou 71% de sua eletricidade em 2024 a partir de fontes limpas, incluindo renováveis e energia nuclear. No segundo trimestre de 2025, a região alcançou um marco histórico, com 54% da eletricidade provinda exclusivamente de fontes renováveis, impulsionadas principalmente pelo crescimento da energia solar e eólica. Países como Noruega, Islândia e Dinamarca já superam os 80% em energia renovável.
Valdomiro Roman, diretor de operações da Associação Brasileira de Metalurgia, Materiais e Mineração, destaca que a descarbonização industrial não é mais uma tendência futura, mas uma necessidade imediata e competitiva. Ele enfatiza que a indústria básica está no cerne dessa transição, afirmando que “não existe economia verde sem aço”.
A GavititHy, uma iniciativa francesa, visa liderar a descarbonização da siderurgia europeia. José Noldin, seu CEO, sugere que a Europa se destaca não tanto pela capacidade técnica, mas pela estrutura regulatória sólida. O Green Deal europeu, que estabelece compromissos legais claros até 2050, demonstra que a descarbonização é vista como uma oportunidade de reindustrialização.
Entre os instrumentos regulatórios importantes estão o pacote Fit for 55, que visa reduzir as emissões em 55% até 2030, e o CBAM, que estabelece tarifas sobre emissões de carbono em produtos importados, incluindo aço. Noldin alerta que, para o sucesso da indústria, é crucial não apenas impor custos, mas criar um mercado que proteja a competitividade.
No entanto, o Brasil ainda carece de um ambiente regulatório estável e previsível para investimentos pode ser um obstáculo significativo, apesar de suas vantagens naturais. Com uma matriz elétrica predominantemente renovável e potencial para hidrogênio verde, o país precisa de políticas claras e consistentes que incentivem a produção de ferro verde.
Roman ressalta que o Brasil deve criar um caminho próprio para se integrar nessa nova ordem industrial, aprendendo com a Europa, mas respeitando suas particularidades. A separação entre a produção de ferro verde e a fabricação de aço final, um conceito emergente, pode acelerar a descarbonização, permitindo que o ferro seja produzido onde há energia limpa e eficiência logística, enquanto a fabricação do aço ocorre próxima aos consumidores.
Esta nova abordagem demanda uma reestruturação profunda da cadeia industrial. A produção de ferro verde não só representa uma inovação tecnológica, mas redefine a dinâmica de toda a siderurgia global. À medida que a Europa avança e o Brasil se posiciona, a discussão sobre ferro verde entra no eixo das estratégias industriais, econômicas e geopolíticas contemporâneas. A Associação Brasileira de Metalurgia, Materiais e Mineração assume um papel vital neste processo, conectando indústria, academia e especialistas para acelerar a construção de uma siderurgia mais competitiva e sustentável.
