Em um convite que abrangeu cerca de 60 nações, países como Argentina, Bulgária e Paquistão já manifestaram apoio à iniciativa, enquanto França, Espanha e Noruega declinaram a oferta. O governo brasileiro, no entanto, adotou uma postura cautelosa, preferindo esperar por movimentos de outras nações antes de tomar uma decisão firme. A interpretação no Planalto é de que a proposta de Trump entra em desacordo com o multilateralismo, princípio fundamental que norteia a política externa do Brasil.
Durante um evento em Salvador, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva expressou suas reservas, afirmando que a proposta resultava no surgimento de uma nova entidade que, em sua essência, colocaria Trump como “o dono da ONU”. Ao contrário da Organização das Nações Unidas, o Conselho de Paz teria Trump como presidente vitalício, concedendo-lhe amplos poderes, como o direito de vetar decisões e eliminar membros.
Para analistas, a configuração do Conselho não possui a autonomia necessária para ser considerado realmente multilateral. Miriam Saraiva, professora de Relações Internacionais, observa que a estrutura do Conselho privilegia a centralização de decisões nas mãos de Trump, o que limita sua efetividade e legitimidade internacional.
Por outro lado, a diversidade de líderes convidados para essa nova iniciativa suscita um debate interessante. Saraiva aponta que, se o Conselho contar com representantes de diferentes backgrounds geopolíticos, poderá, em tese, adquirir um perfil mais legítimo.
Contudo, Charles Pennaforte, coordenador de geopolítica na Universidade Federal de Pelotas, aponta que a falta de uma fundamentação clara pode tornar essa aliança arriscada para o Brasil, especialmente em um cenário internacional cada vez mais volátil.
Um ponto de preocupação é o possível impacto desse novo Conselho sobre a ONU. A reforma da governança global é uma das principais demandas do Sul Global, e Lula volta a insistir na ideia de ampliação do Conselho de Segurança da ONU. Contudo, Saraiva e Pennaforte se mostram céticos sobre se a criação do Conselho de Paz terá o potencial de esvaziar a ONU, considerando que a organizacão já é enfraquecida por outros fatores.
Essas opiniões refletem um dilema contemporâneo, onde o papel das organizações internacionais e a dinâmica do multilateralismo encontram-se em permanente reavaliação diante de novas propostas políticas e alianças internacionais. O futuro do Conselho de Paz e a relação diplomática do Brasil com essa proposta continuam incertos, levantando questões sobre a eficácia e a legitimidade desse novo organismo no contexto global.
