Kane Fukunaga, um empresário que lidera uma empresa de deeptech focada em inteligência artificial, destaca a dependência do Brasil em relação a gigantes como Amazon e Microsoft. Apesar de o país desenvolver tecnologia própria, fica à mercê das chamadas “big techs”, que dominam a infraestrutura global. “Não podemos ignorar a realidade de que as grandes plataformas americanas condicionam nossa capacidade de inovação”, observa Fukunaga.
Esse cenário se agrava devido ao investimento insuficiente em infraestrutura local. As startups brasileiras, com frequência, dependem de serviços como AWS e Azure, pagando em dólares por recursos que não são produzidos internamente. O empresário menciona que formar uma infraestrutura robusta no Brasil é uma tarefa monumental, dadas as limitações financeiras e a falta de um ecossistema que favoreça o desenvolvimento.
Andriei Gutierrez, presidente da Associação Brasileira de Empresas de Software, acrescenta que o debate sobre a soberania digital não pode permanecer abstrato. Ele sugere que o Brasil precisa adotar uma estratégia de longo prazo que priorize investimentos em tecnologia e inovação, utilizando modelos de sucesso de países como a China. O que hoje são centros tecnológicos de ponta foram, há décadas, áreas subutilizadas, resultado de um planejamento estatal deliberado.
Gutierrez também alerta sobre a importância da soberania digital em relação à segurança nacional, especialmente em um contexto global de crescimento da instabilidade política e militar. O país, que possui vastas reservas de recursos naturais e terras raras, deve estar preparado para enfrentar ameaças externas. Ele defende um investimento significativo em tecnologias de defesa, como criptografia avançada, que poderia preservar a segurança nacional diante das incertezas globais.
Por sua vez, Isabela Silveira Rocha, pesquisadora no campo das relações internacionais, critica a falta de vontade política para transformar os recursos disponíveis em uma infraestrutura de tecnologia soberana. Estudos indicam que, ao longo da última década, o Brasil gastou uma fortuna com grandes empresas de tecnologia estrangeiras, quantia que poderia ter sido investida em desenvolver data centers próprios.
No domínio das terras raras, o Brasil possui uma das maiores reservas do mundo e, segundo analistas, sua relevância geopolítica só tende a crescer. A conexão entre esses recursos e a soberania digital é clara; a capacidade de controlar a produção de semicondutores é fundamental para garantir independência tecnológica. Além disso, a capacidade do Brasil de institucionalizar e regular sua legislação no cenário global é crucial.
O debate sobre soberania digital exige uma reflexão profunda sobre o futuro tecnológico do Brasil, considerando não apenas a dependência em relação a atores externos, mas também as prioridades estratégicas que o país deve adotar para garantir sua autonomia e segurança em um mundo cada vez mais digital e interconectado.





