O álbum é estruturado como uma “gira”, um termo que se refere a encontros espirituais nas práticas de Umbanda e Candomblé. A canção de abertura, intitulada “Desgraça”, é uma homenagem à icônica Carmen Miranda, começando com um chorinho típico dos anos 40, que, de forma inesperada, transita para um funk vibrante. Com letras que evocam a estética e a força das Pombagiras, a música ressignifica esses elementos à luz do empoderamento feminino.
Outra faixa digna de destaque é “Mandinga”, uma colaboração com Marina Sena, que utiliza samples do clássico “Canto de Ossanha”, de Vinícius de Moraes e Baden Powell. Através dessa composição, Anitta propõe uma metáfora poderosa sobre sedução e a desconstrução de padrões patriarcais, integrando sonoridades e fundamentos das crenças brasileiras para narrar suas experiências de cura emocional, especialmente após enfrentar desafios de saúde no último ano.
Gravado majoritariamente em sua casa no Rio de Janeiro, “EQUILIBRIVM” respira um espírito colaborativo, que abrange uma diversidade de estilos, desde a MPB até o R&B contemporâneo. A participação de artistas como Luedji Luna, Liniker, Melly e o trio Os Garotin proporciona texturas distintas que vão do samba de roda ao neo-soul. A faixa “Nanã”, por sua vez, resgata o sample de “Cordeiro de Nanã”, de Os Tincoãs, e serve como um manifesto à ancestralidade feminina e à sabedoria dos orixás.
Além disso, a colaboração inesperada com a cantora Shakira na faixa “Choka Choka” une funk e samba, impregnada pela energia das comunidades indígenas, refletindo a riqueza cultural brasileira em um cenário global. A presença de nomes como Rincon Sapiência e Luedji Luna realça a importância política de “EQUILIBRIVM”, que se insere em um contexto social onde o racismo religioso ainda é uma realidade aguda.
Com esse álbum, Anitta não entrega apenas uma coleção de faixas pop; ela oferece um documento sonoro e audiovisual que retrata o Brasil contemporâneo. Ao equilibrar os ritmos do funk com os sons sagrados, a artista convida o público a uma verdadeira “meditação dançante”, reafirmando que o seu sucesso internacional pode e deve estar alicerçado nas raízes de sua cultura. Para Anitta, o real valor não reside meramente em alcançar o topo das paradas, mas em encontrar um equilíbrio profundo entre corpo, mente e espiritualidade.
