Um recente estudo, publicado na Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, revelou uma taxa de reações alérgicas graves superior ao esperado para a vacina Qdenga, desenvolvida pela farmacêutica Takeda. Embora esses eventos adversos sejam considerados raros e estejam descritos na bula do produto, tanto os pesquisadores quanto a empresa recomendam que a aplicação do imunizante ocorra apenas em locais capazes de gerenciar emergências, como postos de saúde e clínicas especializadas.
É importante destacar que essa análise não se relaciona com a vacina contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan, que foi suspensa temporariamente em junho passado após a notificação de 42 eventos adversos, incluindo duas mortes. A relação das mortes com o imunizante está em investigação.
Até o momento, os dados sobre a Qdenga, mesmo com as novas descobertas, não alteram o seu perfil de segurança, que continua a ser monitorado. Uma nota técnica do Ministério da Saúde, divulgada em fevereiro, indicou que entre março de 2023 e setembro de 2024, foram aplicadas 3,4 milhões de doses da vacina no Brasil, resultando em 124 casos de anafilaxia, uma taxa de 36,4 por milhão de doses.
A anafilaxia, uma reação de hipersensibilidade aguda, geralmente se manifesta rapidamente, com sintomas como inchaço das vias aéreas, dificuldade respiratória e pressão arterial baixa. Todos os casos documentados receberam atenção médica e se recuperaram totalmente. No entanto, a taxa de anafilaxia observada no novo estudo foi de 61,6 por milhão de doses, bem acima da registrada anteriormente.
Os pesquisadores do estudo, que analisaram dados de Belo Horizonte entre fevereiro de 2024 e fevereiro de 2025, também notaram que a idade média dos pacientes afetados era de 9,4 anos, e os sintomas surgiram após cerca de 31 minutos da vacinação. Em razão do número elevado de casos, os investigadores sugerem que a vacinação com a Qdenga seja restrita a ambientes de saúde adequadamente equipados.
Alexandre Sampaio Moura, um dos autores do estudo, enfatizou em entrevista a importância da cautela nas recomendações para aplicação da vacina, pedindo que a mesma não seja administrada em locais como escolas ou shoppings.
A farmacêutica Takeda, em nota, reiterou que as descobertas não impactam negativamente o perfil de segurança da Qdenga e ressaltou que os dados refletem um contexto epidemiológico local. O laboratório também se compromete a monitorar continuamente as informações de farmacovigilância da vacina, que já teve mais de 10 milhões de doses aplicadas no Brasil.
Além disso, as diretrizes do Ministério da Saúde recomendam que indivíduos com histórico de alergias graves sejam cuidadosamente triados antes da vacinação, e que a observação pós-vacinação dure pelo menos 30 minutos para esses casos e 15 minutos para o público em geral. A administração da vacina fora de centros de saúde deve ser evitada, a menos que não se possa garantir a disponibilidade de suporte adequado em situações de emergência.
Por último, o Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS) também avaliou a presença de endotoxinas nos lotes da vacina associados a casos de anafilaxia, descartando a contaminação bacteriana durante a produção ou armazenamento.





