ALAGOAS – Coleção Perseverança: Tombamento Nacional Marca Reparação Histórica para Cultura do Candomblé em Alagoas

Em uma conquista marcante para a história cultural e religiosa do Brasil, a coleção Perseverança, composta por 211 itens sagrados, recebeu reconhecimento e proteção nacional ao ser tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em novembro de 2024. Esses objetos, que sobreviveram à brutal repressão religiosa durante o histórico evento conhecido como Quebra de Xangô, agora estão sob a guarda do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas (IHGAL). Este reconhecimento garante proteção aos artefatos e traz à tona questões de memória e preservação cultural.

A coleção, que inclui esculturas sacras, ex-votos, armas, vestuários e instrumentos musicais, ilustra a prática do Candomblé no início do século XX em Alagoas. O tombamento foi aprovado por unanimidade na 106ª Reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, inscrevendo os itens nos Livros do Tombo Histórico, das Belas Artes e Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico. O ato não apenas valoriza a cultura afro-brasileira, mas também busca reparar injustiças do passado.

A trajetória que levou ao reconhecimento iniciado em 2012, quando Alagoas celebrou o centenário do Quebra de Xangô com um pedido de perdão formalizado pelo então governador Teotonio Vilela Filho. O evento foi celebrado com um cortejo público que homenageou religiões de matriz africana, reafirmando o compromisso do estado em construir um futuro mais inclusivo para essas práticas culturais. Naquele ano, o projeto “Xangô Rezado Alto” celebrou a memória e promoveu uma reflexão sobre a importância do respeito e da preservação cultural.

Enio Lins, membro do IHGAL, destacou a dimensão política, social e econômica deste reconhecimento, abrindo caminhos para que a coleção colabore com museus e centros de pesquisa e se insira em circuitos de turismo cultural. Danilo Marques, historiador e coordenador do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (Neabi), reforça que o tombamento é um passo fundamental na política de ensino da história ao salvaguardar a memória cultural afro-brasileira e fomentar diálogos sobre intolerância religiosa e racismo estrutural.

A história da coleção Perseverança resgata um passado doloroso, onde itens religiosos foram expostos como troféus da repressão, para agora serem valorizados e protegidos, constituindo símbolo de resiliência e memória coletiva.

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