Afastamentos por burnout disparam quase 500% em quatro anos, pressionando a Previdência e revelando uma crise de saúde mental no mercado de trabalho brasileiro.

Nos últimos anos, o Brasil tem testemunhado um aumento alarmante nos afastamentos por burnout, que cresceram quase 500% entre 2021 e 2025. Esse fenômeno, que surge em meio a jornadas longas de trabalho, hiperconexão e precarização das relações laborais, apresenta uma fatia significativa no orçamento da Previdência Social. De acordo com os dados do Ministério da Previdência, os auxílios-doença relacionados ao esgotamento profissional têm pressionado severamente os cofres do INSS, com os casos no primeiro semestre de 2025 ultrapassando 70% do total registrado no ano anterior.

Os especialistas em saúde mental alertam que a realidade pode ser ainda mais grave. O burnout, apesar de reconhecido oficialmente como uma doença ocupacional em 2023, é muitas vezes difícil de diagnosticar e frequentemente se apresenta combinado a outras condições, fazendo com que os números reais sejam subestimados. Além disso, a informalidade no mercado de trabalho impede que muitos trabalhadores, que não contribuem para o INSS, sejam contabilizados nas estatísticas, dificultando um panorama mais preciso do problema.

O crescimento nos afastamentos ocorre em um contexto onde as jornadas de trabalho são cada vez mais exaustivas. A pandemia de COVID-19 exacerbou esses fatores, criando um ambiente propício ao adoecimento mental. Desde 2024, o governo começou a exigir das empresas o mapeamento de riscos psicossociais, uma medida que, embora necessária, foi adiada em termos de penalização até 2026, após pressão do setor empresarial.

Os números também refletem um aumento significativo nas despesas com auxílios-doença, que saltaram de R$ 18,9 bilhões em 2022 para R$ 31,8 bilhões em 2024. Essa alta é preocupante, uma vez que os afastamentos por transtornos mentais tendem a ser mais longos, resultando em perda de renda e dificuldades financeiras para os trabalhadores, que frequentemente enfrentam um benefício inferior a seu salário normal.

No campo do Judiciário, a situação também é crítica. O número de processos trabalhistas relacionados ao burnout não para de crescer, com mais de 20 mil menções ao termo em 2025 e um passivo estimado de R$ 3,63 bilhões para as empresas. Advogados afirmam que esses casos estão diretamente ligados a ambientes de trabalho tóxicos e ressaltam a importância de encarar o burnout como uma questão estrutural, e não como uma fraqueza individual.

Pesquisadores e ex-gestores da Previdência observam que esse fenômeno não é recente; o aumento nos afastamentos por transtornos mentais é uma tendência de longa duração, já identificada desde os primeiros anos de 2000 e detonada pelas novas dinâmicas do mercado de trabalho. Para acessar o auxílio-doença, os trabalhadores precisam apresentar atestado médico que certifique a relação do adoecimento com as condições laborais, podendo solicitar o benefício pela Central 135 ou pelo aplicativo Meu INSS.

Diante desse cenário preocupante, especialistas clamam por ações mais robustas de prevenção e pela criação de ambientes de trabalho que minimizem a sobrecarga, para que o burnout não continue a se espalhar e a provocar impactos sociais, econômicos e humanos de grande magnitude.

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