Acordo Mercosul-União Europeia: Nova tensão entre membros pode inviabilizar integração e fortalecer rivalidades internas.

O recente acordo de livre-comércio entre o Mercosul e a União Europeia, embora celebrado como um marco histórico, já revela complexidades que podem enfraquecer a integração entre os países sul-americanos. Em menos de um mês após o seu fechamento, as primeiras consequências demonstram que a disputa por cotas de exportação, as assimetrias econômicas e novas exigências regulatórias estão provocando tensões internas.

No cerne da questão está o sistema “First-In, First-Out” (FIFO), que estabelece que as primeiras mercadorias a entrarem nas cotas são as primeiras a serem retiradas. Com isso, Argentina e Uruguai rapidamente esgotaram suas cotas de isenção tarifária para produtos como arroz e ovos, deixando os exportadores brasileiros em desvantagem. Por exemplo, a cota total de arroz para o Brasil no ano de 2026 era de 6.667 toneladas, das quais 63% já foram fornecidas pelo Uruguai e 37% pela Argentina.

Por outro lado, a União Europeia anunciou recentemente a retirada do Brasil da lista de países autorizados a exportar produtos de origem animal, uma decisão motivada por preocupações com o uso de antimicrobianos na pecuária. Caso permaneça, essa medida afetará severamente a exportação de carne bovina, aves, peixes e ovos, intensificando as dificuldades para os produtores brasileiros.

Esses fatores levantam questionamentos sobre se o tratado realmente fortaleceu o Mercosul ou se, ao contrário, ampliou as divergências internas entre os sócios. Especialistas indicam que a falta de um consenso claro sobre como dividir os benefícios do acordo já estava na raiz das fragilidades do bloco, e o recente acordo poderá exacerbar essas tensões. Johnny Silva Mendes, professor de economia, destaca que a ausência de regras de distribuição traz à tona o “problema dos bens comuns”, onde os recursos são apropriados de forma desigual.

Guilherme Ferreira, especialista em Relações Internacionais, complementa que a competição interna por mercados externos continua a dificultar a construção de cadeias produtivas regionais. A concessão de cotas ao Mercosul como um bloco, sem distinção entre produtos de cada país, será crucial na definição de como esses benefícios serão repartidos. A proposta em debate abrange desde uma divisão proporcional ao comércio existente até repartições iguais, defendidas por nações como o Paraguai.

Essas decisões não apenas afetarão quem se beneficiará mais do acordo com a União Europeia, mas também serão indicativas da intenção do Mercosul em encarar suas assimetrias econômicas.

Adicionalmente, o sucesso do acordo pode oferecer uma oportunidade de melhoria na integração regional, estimulando a formação de cadeias de valor que beneficiem todos os países membros e promovam uma maior harmonia no bloco, em vez de intensificar rivalidades. Neste contexto, a forma como o Mercosul lidar com essas questões poderá definir seu futuro, especialmente em um cenário internacional que se torna cada vez mais complexo.

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