A reforma da Previdência de Temer vem aí. E a opinião pública, importa?

O Brasil vive uma situação peculiar em 2017. O governo Temer é fraco na opinião pública – apenas de 6% de avaliação positiva segundo o último Ipsos – e ao mesmo tempo suficientemente forte no Congresso Nacional para passar reformas impopulares, como a da Previdência. E não apenas Temer é visto com desconfiança, mas toda a chamada classe política. A mesma que, em breve, promete aprovar uma reforma que vai mexer com o bolso de milhões de brasileiros. E para pior.

Do jeito que está posta, a reforma da Previdência prejudicará em primeiro lugar a população mais pobre. A ver:

Os trabalhadores rurais, que geralmente começam a trabalhar mais cedo, terão que se aposentar com idade mínima de 65 anos. Em estados como Alagoas, esta é a expectativa média de vida para homens. Os trabalhadores rurais terão também que passar a pagar mensalmente a contribuição, o que não acontece hoje. Em um país onde pequenos agricultores ainda contabilizam seus lucros em sacas de feijão e milho, a contribuição mensal poderá jogá-los para fora do sistema previdenciário.

O pacote de maldades é amplo. Pune as mulheres ao equalizar sua idade mínima à dos homens. Elas que, em uma estrutura social machista como a nossa, fazem dupla e tripla jornadas trabalhando fora e, no mais das vezes, cuidando da casa e de filhos.

Não se discute que o Brasil está envelhecendo. Que algo precisa ser feito. Tudo isso é verdade. Mas mudanças deste quilate, a meu ver, por afetar a vida de milhões de pessoas, deveriam ser feitas de forma gradual. E não na base da chantagem, de que é isto ou o caos, como sugere a publicidade oficial em anúncios de página inteira nos jornais. Até porque os números da Previdência e a dimensão de seu déficit são questionáveis – como aliás tudo na vida.

É singular que um governo e um Congresso amplamente rejeitados pela opinião pública tenham força para fazer reformas desta magnitude. Ao mesmo tempo, Temer aplica um programa que vai na direção contrária àquele escolhido pelas urnas em 2014, em chapa da qual foi vice. Um programa “novo” que parece, porém, ter uma maioria inquestionável no Congresso. Congresso cujos parlamentares, a sua maior parte, certamente tem não apenas renda garantida de aposentadoria para si mas para as próximas gerações de familiares.

Nas próximas semanas e meses a reforma da Previdência vai ganhar visibilidade e com ela todo este balaio. Com certeza haverá reações, particularmente da chamada sociedade civil organizada, como sindicatos. Terão, porém, as “ruas” força para alterar qualquer coisa que seja? Ou o jogo já está jogado, nesta imensa janela de oportunidades em que vai se transformando o período de Temer na presidência?

 

Yahoo

06/02/2017

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