24ª Flip Celebra Legado de Orides Fontela com Performances e Reflexões sobre Poesia e Meio Ambiente

A vida e obra de Orides Fontela foram minuciosamente exploradas na abertura da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que ocorreu na noite de quarta-feira (22). Este ano, a poetisa é a homenageada da edição e sua trajetória inspirou um ensaio-performance apresentado pela poeta Marília Garcia, além de uma aula-show conduzida pelo editor e jornalista Augusto Massi.

O evento, que teve como palco a Tenda dos Autores, conseguiu equilibrar leveza e critério analítico, cativando os presentes. Entretanto, o público assistente pelo telão do lado de fora enfrentou problemas técnicos, com a transmissão caindo duas vezes e, em determinados momentos, a imagem permanecendo ausente por cerca de cinco minutos.

Intitulada “Entra Furtivamente a Luz”, em alusão ao poema “Alba I” de Orides, a mesa de debate contou ainda com um depoimento em vídeo do crítico Davi Arrigucci Jr., que foi determinante para a redescoberta da poeta nos anos 1960. Ele recordou que, como conterrâneo de São João da Boa Vista e ex-colega de escola, teve o primeiro contato com os escritos de Orides apenas anos depois, quando já adulta, viu seu poema publicado em um jornal local.

Arrigucci revelou que as primeiras composições da poeta, escritas durante os tempos de colégio, eram parnasianas e pouco impactantes: “Mas quando li seu poema no jornal vi que tinha surgido algo que parecia grande poesia”, contou. Ele também organizou o primeiro livro de Orides, “Transposição”, lançado em 1969, que não fez grande sucesso. Foi somente a partir de sua terceira obra, “Alba”, que a poeta começou a ter seu valor reconhecido, embora tenha vivido uma vida marcada pela precariedade financeira até sua morte em 1998.

Após a exposição de Arrigucci, Marília Garcia tomou a palavra e apresentou um ensaio-poema que trapaceou entre memória pessoal e crítica literária, refletindo sobre um antigo recibo encontrado em um livro de Davi Arrigucci Jr. na biblioteca da PUC. Essa coincidência, segundo ela, ressoava com a estrutura de enigmas e silêncios que permeiam a obra de Orides. Marília também destacou a presença simbólica dos pássaros na poesia da homenageada, relacionando-os a questões contemporâneas, como os alarmantes relatos de aves morrendo em meio ao calor extremo da Europa.

Na sequência, Augusto Massi aprofundou-se na trajetória intelectual e na arquitetura poética de Orides, ressaltando a importância do crítico em guiar os leitores a compreender a profundidade de uma obra que, embora limitada a cinco livros e pouco mais de 200 poemas, traz um rigor geométrico e transformações significativas. Massi, que editou as obras completas da poetisa nos anos 1980, elucidou o desenvolvimento do universo imaginário de Orides, desde suas referências católicas iniciais até a influência do zen-budismo em sua produção posterior. Ele também destacou o uso inovador da pontuação em sua escrita, sublinhando que “a pobreza na Orides é a sua riqueza”, tornando sua obra ainda mais rica em significados.

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